Mais do que uma meta: “É uma sensação que nunca se esquece”
A história de Luís Almeida, profissional de seguros, é um testemunho de que a alta intensidade desportiva é o caminho para o equilíbrio na vida adulta. Descobrindo o triatlo após os 40 anos, ele transformou uma paixão numa opção de vida, encaixando longas horas de treino numa rotina preenchida.

Às 7h30 da manhã, enquanto a maioria ainda dorme, há quem já esteja a terminar 40 quilómetros de bicicleta. Não por obrigação, mas motivado por uma escolha. Uma escolha que exige sacrifício, determinação e muita força de vontade. Entre reuniões, responsabilidades familiares e prazos apertados, há cada vez mais profissionais que encontram no desporto de alta intensidade uma forma de equilíbrio. Um espaço onde o corpo é posto à prova e a mente encontra foco, mesmo quando o relógio parece não dar tréguas.
Luís Almeida é um desses exemplos. Profissional na área de seguros, descobriu o gosto pelo desporto aos 40 anos, quando decidiu dar a primeira pedalada. “Comecei a fazer desporto com pequenas voltas de bicicleta ao fim de semana, uma vez que gosto muito de ver ciclismo”, recorda. “Dois anos depois, como sabia nadar, decidi experimentar um triatlo e gostei muito da experiência”. O que começou como um hobby transformou-se numa paixão, culminando no maior desafio do triatlo: o Ironman. Hoje, essa paixão é o que o move a cada treino, a cada manhã e a cada dia.
Entre o trabalho e o tempo
Os ponteiros do relógio marcam 6h30 quando o alarme começa a tocar. Mesmo cansado, Luís Almeida prepara-se para enfrentar os 30 quilómetros de corrida previstos no seu plano de treino. À medida que o horizonte se tinge de laranja, aperta os cordões, inspira fundo e o silêncio da cidade é interrompido apenas pelo som dos seus passos. A cada quilómetro, deixa para trás o cansaço e renova a determinação, mas o corpo também pede pausas.
Conciliar o descanso com a prática de desporto exige uma forte regulamentação e atenção ao corpo. Luís destaca que “o descanso é fundamental”, sendo necessário reservar pelo menos um dia por semana para permitir ao corpo descansar e recuperar do esforço físico e da carga de trabalho. Quando isso não é possível, Luís considera importante “alternar dias mais intensos com dias de recuperação ativa ou de treinos mais leves”.

Atualmente, Luís treina cerca de oito horas por semana, tempo que precisa de encaixar numa agenda já preenchida por longos dias de trabalho. Os horários imprevisíveis obrigam-no a uma constante adaptação. “É preciso ter alguma flexibilidade”, admite, enquanto ajusta os planos de treino à realidade de cada semana. Há dias em que o despertador toca antes do sol nascer, para conseguir treinar antes de um dia de reuniões. Noutros, o tempo dedicado à família cede lugar às horas de esforço sobre a bicicleta ou na corrida.
É o caso dos domingos onde o descanso não faz parte dos planos de Luís. Pega na bicicleta e segue para a estrada. No ponto de encontro habitual, encontra-se com os amigos e, juntos, enfrentam o desafio dos 85 quilómetros que definiram. Pedalam lado a lado, ajudam-se nas subidas e partilham o silêncio da manhã. Quando regressa, o cheiro do almoço mistura-se com as vozes da família. Mais tarde, há tempo para o passeio, o descanso e o silêncio sereno de quem fez o que gosta. Entre a meta e o abraço, Luís encontrou o verdadeiro equilíbrio.
A resiliência não nasce de um dia para o outro, constrói-se treino após treino. Para quem diz não ter tempo, o conselho é simples: “Começar é dar um passo à frente”. Os primeiros dias custam, admite Luís, mas a chave está na consistência. Planear os treinos, mesmo que seja preciso ajustá-los, é o que transforma a vontade em hábito.
O foco que supera a dor
O momento mais marcante da sua carreira como atleta amador aconteceu em Barcelona, quando completou o primeiro Ironman, no ano de 2019. O dia amanhecia quente, o ambiente vibrava com a energia dos atletas e do público. Tudo corria bem até que, no segmento de ciclismo, um boião de água na estrada o fez cair. “Esta prova marcou-me para o resto da vida” afirma o atleta. Ferido, com a sobrancelha aberta, duas costelas rachadas e o ombro deslocado, foi assistido por enfermeiros que o aconselharam a desistir. Mas Luís recusou. “Foi pensar na minha família, que estava lá a apoiar-me, que me fez continuar”, recorda.

Com dores em cada pedalada e passo, continuou a persistir motivado pela vontade de acabar a sua primeira prova de triatlo de longa distância. Cruzou a meta em 10 horas e 48 minutos. Exausto, mas realizado. “Foi uma experiência dura, mas terminar foi uma conquista pessoal enorme. É uma sensação que nunca se esquece”.
A história de Luís Almeida ilustra uma realidade cada vez mais comum: profissionais que encontram no desporto de alta intensidade uma forma de equilíbrio e superação. A conciliação entre trabalho e treino não é simples, exige disciplina, planeamento e sobretudo paixão. No final, o que o move não é apenas o cronómetro ou a medalha, mas o processo em si. “Trata-se de uma opção de vida”, diz com serenidade.
Leonor Almeida, Novembro de 2025



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